quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Grito de Carnaval

Dicas de Como Soltar uma Colombiana no Rio sem Perder a Pobre

Como minha amiga Adris tinha cumprido sua promessa de me mostrar Bogotá e San Andres, cabia a mim cumprir minha parte no acordo e mostrar o Rio e o carnaval.
Logo eu, que desde que comecei esta vida de embarques, nunca mais soube o que era isso! Mas vamos lá, uma brasileira sambando mal já é bem melhor que um gringo sambando muito bem.

As aulas de português tinham começado ainda na Colômbia. Como obviamente eu falava em português com a Ivy, Adris, como bom papagaio, ficava prestando atenção e repetindo. O único problema é que ela tem uma memória muito volátil, e esquecia tudo. A única frase que ela conseguia guardar era “eu falo português também...”
E achava que estava ótimo!

Comecei a ensinar algumas palavras básicas para ela sobreviver no Rio:
“Adris, cerveza es GELADA. Chanclas es CHINELO. Hombre buenon es GOSTOSO...”
Ela, como boa trainee, gravou a lição. Mais tarde, arrumando a mala, me perguntou o que deveria levar de roupa. Eu falei pra ela, em português, qual o uniforme oficial do rio:
“Canga, chinelo e biquini. O que você precisa mais pra ser feliz?”
Ela, certeira: “Uma gelada!!!”
Estava pronta para o Rio.

Desembarcamos no mundialmente conhecido Aeroporto Antônio Carlos Jobim. Aquele que não é o Santos Dumont. E que você achava que era o Galeão. Pois. Ali mesmo.
Meus pais estavam nos esperando. Mal abracei minha mãe ela perguntou do meu irmão. HEIN?
Não, mãe... eu viajei com a Ivy, nào com o Leo...
Aí ela explicou – o Leo tinha vindo pro aeroporto também, ligou pra ela e perguntou em que terminal eu chegaria. Ela disse 2. Ele foi pro 2. Depois ligou pra ela e disse que não era 2, era 1. Ela insistiu que eu tinha dito 2. E foi pro 2.
E eu cheguei no 2.
Minha mãe ligou para o meu irmão, que estava – ora vivas! – no 1.

O divertido foi, depois, saber da Josie, que estava na dela, curtindo o carnaval em Olinda-PE, que meu irmão ligou pro seu celular, em plena manhã, quando a coitada ainda estava curando a ressaca da noite anterior, e disse:
- Josie, a Jaque tá chegando!
“Chegando onde? Em Olinda???” deve ter pensado a pequena infante... mas como reconheceu a voz do Leo, e sabendo que lógica nem sempre permeia suas conversas, ela perguntou:
- E?
- Então... eu tô no aeroporto.
- E??
- Qual o terminal que ela chega???

Você não precisa de exposições de Salvador Dali quando tem o Leo em sua vida.

Seguimos para Pet, para o famoso churrasco de boas-vindas, piscina e uma gelada. Descansar os esqueletos para se preparar para o carnaval carioca.
Minha amiga colombiana, totalmente inocente do jeito Costa de receber visitas, aceitava tudo que ofereciam. Depois de provar a picanha na brasa, queijo coalho, pão de alho, coraçãozinho, farofa, e um mega-prato de feijão tropeiro, me pediu quase de joelhos:
- Por favor, Jacky.... diga a tus papas que parem de me ofrecer comida.... porque la como! ! ! !
Isso, Shakira, é problema seu...

Jaqueline Costa
Ô Lê Lê! Ô Lá Lá!

As Últimas Bogotanas

Uma Hora Teria que Acabar

A parte colombiana das férias estava chegando ao fim. Saíamos do hotel em San Andres, rumo ao aeroporto e a Bogotá. Na entrada do hotel, os animadores dançavam músicas caribenhas para saudar os turistas que chegavam.
As turistas que saíam, como sem-noção que são,
a nível de sem-noção que sempre serão, aprontaram a última islenha.
Ivy olha pra mim rindo e fala: “Jaque, pergunta pro tiozinho se ele tem ‘Olha a Onda’ “
Eu já sabia qual a idéia que passava nesta mente do mal. Perguntei, só pra confirmar: “Mas você vai me acompanhar? “
Resoluta: “Vou”.

Fui eu então perguntar ao animador de plantão se ele tinha em sua musicoteca este clássico do cancioneiro bahiano.

E ele tinha!
E assim os turistas novos foram recebidos por duas brasileiras ensinando Axé Bahia para a galera do hotel.

Pelo menos já sei onde pedir emprego caso a Xubis me mande embora.

Depois do teco-teco para Bogotá, chegava também a hora de nos despedirmos do país de Juanes. Para nos lembrarmos da cidade, e como nos orientar caso regressemos, Adris desenhou um mapa tão perfeito que desconfio ela estudou engenharia cartográfica e não de petróleo. Segue o dito:

Ficou a dúvida se isto era um mapa ou uma arepa. Pero bién...

E em nossa última noite colombiana fomos para um restaurante com mariacchis mexicanos!
Não me perguntem por que, eu estava só seguindo minha cicerone.
Claro que não existe serenata mexicana sem tequila, e pedimos uma garrafa. Mandaram uma com o vermezinho.
Vocês sabem a tradição, se o vermezinho cair no seu copo, tem que tomar tequila com verme e tudo. Senão seu cabelo fica roxo, os dentes caem, você perde o emprego, se for homem sua mulher lhe bota chifres e se for mulher seu marido vira gay. O homem do saco sequestra seu filho, seu cachorro não lhe sorri latindo, e a preta do leite vira sua vizinha e conta toda a vida dela pra você 5 vezes por dia, já que você tá desempregado mesmo e tem tempo pra ouvir.
E o Brasil perde a Copa!

Quando chegou a garrafa com o simpático verminho, já fui avisando: sou vegetariana, só por isso que não vou engolir o amiguinho aí.

Jaqueline Costa

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Olha quem tá aí...


E estava eu passeando por Londres e quem eu vejo?
SIIIIM, ele mesmo...
MAUMAU, meu amigão! Quanto tempo! ! ! !

E mereço mesmo!!!!

Como hoje é segunda-feira, dia internacional da preguiça e do mau humor, além do calango coçador de saco, agora acabo de ser informada que vão abrir a pândega do poço meia-noite. Ê lerê!
E pra quem não sabe: ontem sete horas da manhã o alarme tocou. Claro que não era emergência. Era só trote. Ou melhor, era "treinamento". Tá. Sete da manhã de domingo.
Se não era trote, o capitão desta fragata é xiita. Purinho.

Eu Mereço

Estou embarcada. Embarcadíssima, embarcadérrima.
Para alergia dos meus neurônios (não digitei errado. Não é alegria. É alergia mesmo. Meu cérebro é alérgico a falta do que pensar), não há um lugar pra eu ficar na minha, lendo meu livrinho. A sala de recreação tem pouca iluminação e o povo fica ali vendo filmes supimpas como Sex and the City. Ou então programas que explicam como se constroem plataformas de petróleo - pela mãe do guarda, eu estou sobre uma! Dormindo e acordando! Eu quero é saber como destruir esta bodega!
Meu ponto de escape é a sala dos engenheiros. Meu computador ali, plugadinho, eu acesso a internet. E leio meu livrinho. As cadeiras não são muito confortáveis, mas incomodada ficava a sua avó.
E estava eu, na minha, conversando pelo messenger... quando o cara do meu lado resolveu coçar o saco!
Discretamente, escondidinho, virado pro canto???
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.
Enfiou a mão inteira dentro das calças e deu AQUELA coçada! Por um momento tive ímpetos de bater em seu ombro e dizer: Vai com calma, seu moço, que vai arrancar as bolinhas assim!

Eu mereço

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Piadas do Caribe

A Sequência que Johnny Depp não Filmou

De Bogotá embarcamos num dedicado teco-teco Avianca para então conhecer San Andres, uma pacata ilha no mar do Caribe que fica do ladinho da Nicarágua, mas pertence à Colômbia. Por que, ninguém sabe direito. Mas eu passei a ficar mais esperta depois que descobri isso – afinal, se os colombianos são capazes de roubar uma ilha inteira, o que não fazem com uma simples carteira???
San Andres é um daqueles pequenos paraísos perdidos que a gente procura em todas as gavetas e só acha na última. Águas cristalinas, música caribenha, povo sorridente e OPEN BAR. E mal aportamos, somos informadas sobre os principais produtos de exportação da ilha caribenha: côco, peixe e negrinhos! Então tá...
Além de produto-exportação, os menininhos de lá são serelepes (gíria da vovó. Não gostou? Incomodada ficava a sua) que só. Já de saída, um dos animadores do hotel, ao tomar ciência da presença de brasileiras entre os hóspedes, mais rápido que Speedy Gonzales começou uma campanha em causa própria para ter uma aula de samba di grátis. No mais representativo exemplo de 'não aceito não como resposta'. Tentando em vão me desvencilhar do tipo, falei 'amigo, não dá. Pra saber sambar tem que nascer no Brasil. O samba tá no sangue...'
Ao que o gaiato disparou: 'então me mostra a circulação...'

Claro que a interatividade nos seguia pela rua. Caminhando em direção à praia, as três distraidamente conversando, e mais um aborígene manda a sua:

- Mira que 3 bellas. Santa Maria, Pinta e Nina!

Como não havia ficado claro quem era quem, Adris saiu com sua interpretação

- Nina soy yo, porque soy la más pequeña. Pinta es Ivy, porque es toda pintadita. Y Santa Maria es Jacky, que de santa no tiene nada!!!!

Diante de tão clara explicação, quem seria eu para contestar?

Resolvemos conhecer a ilha além das paredes do hotel. Um atípico guia, cria da terra, nos mostrava uma lagoa onde caimánes, uns simpaticos primos dos jacarés, tranquilamente descansavam sob a água, só olhinhos e narinas aparecendo.
Também fomos levadas a uma árvore gigrande com um vão enorme no centro, onde se pode entrar e, olhando acima, ver o céu, já que a árvore perdeu sua copa quando foi atingida por um raio, e seu interior foi todo roído por cupins. Ou seja, uma árvore azarada pra caralho.
O guia, mais uma amostra da simpatia e surrealismo local, entre uma explicação e outra da flora e fauna lacustres, nos aponta na direção oposta à agua e manda:

- Por ali, ali naquele poste, ficam uns camaradas vendendo erva... Se vocês quiserem é só falar comigo. Eu vou lá e avalio o material, só aceito se for de primeira qualidade...

Depois dessa oferta tão ímpar, não tivemos nenhuma surpresa quando o filho do guia, um gordinho de 12 anos, nos contou que era rumbeiro e eventual apreciador duma cachaça, enquanto distraidamente atropelava uma árvore...
Fomos até a Cova do Morgan, pirata caribenho que morou na ilhota. Entre uma e outra informação impossível de guardar, vem o número de esposas que teve o bucaneiro: 80. Com uma rápida conta de filhos e netos que podem vir desse harém, já deu pra visualizar que em San Andres todo mundo deve ser primo um do outro.
Mas nada embaça a maravilha que é nadar em águas azulíssimas, que fazem qualquer um desconfiar que um cargueiro com milhões de litros de cloro afundou na região, entre peixes que de tão coloridos me levam a crer que o Cara estava brincando de aquarela quando criou o Caribe.
Já no último dia de San Andres, descansando os ossos nas espreguiçadeiras do deck do hotel, uma última guaribada no bronzeado antes de pegar as malas e voltar para a realidade, eis que um vento kamikaze derruba minha bermuda, que preguiçosamente jazia ao meu lado. E, com ela, a chave – que, obviamente, já que o Destino é sacana e amigo pessoal de Murph, caiu no vão entre as madeiras do deck, diretinho na água.
Para alegria de nossos cartões de crédito estourados, a água é MUITO transparente. Um pequeno mergulho estilo apnéia e recuperei a dita, senão teríamos que pagar extorsivos 50 dólares ao hotel!!!

Jaqueline Costa
Próxima Página: as últimas de Bogotá, e preparativos para o carnaval no Rio

domingo, 5 de abril de 2009

Mi Casa, Su Casa

Shakira Shakira

Foi uma surpresa pra mim enquanto planejava minha viagem para a terra de Juanes, ainda na Grande Bethânia, ver que não há vôo direto Rio-Bogotá. Minhas opções eram pit-stop em São Paulo, Lima ou La Paz.
Não que uma visita ao Peru, depois de tanto tempo sem contato com esta nação tão... aprazível, não seria bem-vinda. Mas Isto me levaria a uma viagem com um total de 22 horas, então deixei o prazer de ladinho (Mas Que Delícia!) e, mesmo arriscando-me a chegar na Colômbia e descobrir que minhas malas tinham sido enviadas para o Vietnam, optei pela escala paulixta.
Um fato já comprovado cientificamente e registrado nos anais da ciência é que todo castigo pra corno é pouco. Horário de saída do Rio: seis da manhã!
Pra não perder tempo, já que nós viemos aqui pra beber E pra fofocar, virei a noite à base de cerveja e vida alheia com minhas amigas no Rio. Segui depois direto (mas não muito reto... ) para o aeroporto.
Armada de muita vontade de conhecer o ritmo colombiano, encarei as dez horas de vôo Avianca, uma empresa que possui séria crise de identidade, ainda não se definiu como companhia aérea, turística, cooperativa de van ou camelódromo.
Os vôos foram cornometrados para que Ivy e eu chegássemos exatamente à mesma hora em Bogotá. Encontrei a Paulixta no saguão para recolher as malas – que, inacreditavelmente, chegaram direitinho. Acho que foi a excessão que comprova a regra. Colocamos nossas respectivas bagagens no carrinho e seguimos para a aduana. Qual não foi nossa surpresa quando, depois de passar as malas pelo raio-x, percebemos que estávamos já no estacionamento!
É isso aí... o aeroporto de Bogotá vai direto ao assunto. Se você já pegou suas malas, o que quer mais? Some!

Adris nos esperava já, e seguimos direto para sua casa, só para deixar os pacotes e começar a explorar a cidade.
Ou, melhor dizendo, as ofertas etílicas da cidade.
Depois de uma agradável tarde regada a mojitos (ou mojotes. Cada cuia tinham bem um meio-litro da bebida), voltamos à casa de Adris, só para deixar o carro e então seguir novamente rumo à night, então em taxi.

Deixar o carro é um termo mais que perfeito. Nem que quiséssemos, poderíamos usá-lo pra sair, já que a colombiana incorreu no primeiro dos três erros que um motorista deve evitar: trancar o carro com as chaves dentro!

Nos dias seguintes ela ainda cometeria os dois outros erros: nunca use um rádio de frente removível se você não sabe colocar a frente de volta, e, acredite, freio-de-mão só se usa com o carro parado...

A noite foi longa, com direito a sermos botados pra fora da boate afinal já era muito tarde (ou muito cedo, depende do referencial). Bem, foi longa pra mim e pra Ivy. Pra Adris e seus amigos foi aparentemente curta, já que eles não conseguem se lembrar de metade do passeio.
Dia seguinte, parte recuperadas da hiperdosagem de mojitos, fomos conhecer a bela Bogotá. Com direito a visitar o Museu de Botero, subida ao Santuario de Monserrate de onde se pode ver toda a metrópole, caminhada pelo centro, visita ao Chorro Quevedo. Tudo isto tendo como guia Adris, que cavava em sua memória as aulas de história da infância para nos brindar com explicações:

- Policarpa Salvarrieta foi a “Libertadora do Libertador”, a amante de Simón Bolívar que o ajudou na revolução e foi responsável por salvar a ele de vários atentados. . .

Esta interessante explicação foi dada quando, caminhando por uma das ruazinhas que mais pareciam uma versão em espanhol do nosso Pelourinho, vimos uma placa que dava conta de ter vivido naquela casa uma senhora que for amiga de Policarpa.
Momentos mais tarde, numa livraria, a Paulixta pega um livro e calmamente pergunta pra Adris:
- Ei, quem foi mesmo a Libertadora do Libertador?
Adris, certeira: “Policarpa Salvarrieta!”
- Ah, sei... e esta aqui quem foi?
Ivy mostrou o livro: Manuela Saenz, La Libertadora del Libertador.
Adris, rápida como Speedy Gonzales: “Por isso que eu digo, Manuelita Saenz!!!”

Claro que a confiança nos dados históricos ficou seriamente abalada, e então resolvemos parar de besteira e seguir para uma cerveja ao sol, que o dia estava lindo.
Uma bela pracinha, o Chorro de Quevedo, local da presumível fundação da cidade por Gonzalo Jimenéz de Quesada (não sei se ele era amigo do Padre Quevedo. Acho que eso non ecziste...), foi o local escolhido para abrir os trabalhos. Com o belo céu azul que nos brindava a Deusa, seria um pecado mortal nos sentarmos entre quatro paredes, então escolhemos uma das mesinhas simpaticamente colocadas do lado de fora do Café escolhido, e pedimos nossos respectivos sucos de cevada.
Para nossa surpresa, não se podia beber do lado de fora.

Mas nós estávamos na Colômbia, América do Sul, e não no Reino Certinho. Uma boa conversa com o mesero, e ele deu seu jeito.
As cervejas foram servidas em canecas de capuccino. Com direito a espuma.
Após alguns agradáveis cafés, voltamos à casa. Contávamos à senhora Gladys, mãe de nossa singular cicerone, as histórias vividas durante o dia, quando Adris subitamente se lembrou de perguntar:

- Mãe, quem foi a Libertadora do Libertador?
Señora Gladys, com toda a certeza do mundo: “Policarpa Salvarrieta!!!”

Jaqueline Costa
Estoy Aqui

segunda-feira, 23 de março de 2009

Nem Tudo É Festa – Só A Grande Parte

Página Escrita num Salto Temporal

Que me perdoem os que gostam de tudo organizadinho, mesa limpa, gaveta de calcinhas arrumada e fotos organizadas por tema e data. Nada disso é meu forte, e a página sobre San Andres vai vir depois desta, que é mais atual. Resolvi contar sobre o trabalho que me mandaram, uma operaçãozinha onshore.
Pra quem não esta familiarizado com o fantástico mundo do petróleo, deixem-me fazer uma breve explicação sobre onshore e offshore.
Petróleo é um combustível fóssil com algumas características interessantes - é mineral, porém composto basicamente por moléculas orgânicas. Foi usado durante muitos anos apenas como combustível para lamparinas. É inflamável, obviamente, existe em uma gama variada de viscosidades e, o mais importante para nós, trabalhadores desta indústria, SÓ DÁ EM LUGAR FEIO.
As explorações em alto-mar requerem plataformas especialmente construídas para tanto - são as locações offshore. Por conseguinte, os trabalhos em sondas em terra são chamados onshore.

Trabalhos onshore não são meus favoritos. Basta pensar que, estando offshore, há todo um serviço de hotelaria para garantir que a plataforma não seja convertida no maior e mais custoso chiqueiro do planeta. Cuidado que não existe nas locações de terra. Estas, em geral, não são mais que um clarão aberto no meio do nada, com contêineres que servem de escritório, cantina, vestiário e, claro, banheiro.
Agora, imaginem esse aprazível cenário num dia chuvoso, lamacento, sem nenhuma mucama pra passar uma vassoura, e aquele monte de peão solto.
A visão do inferno.

Me mandaram para um desses trabalhos aqui na Grande Bethânia. Eu já tinha comigo essas desagradáveis impressões adquiridas em alguns trabalhos no Brasil, mas aqui pude acrescentar uma mais: um friaralho do carinho!
Voces irão então perguntar: mas não há aquecedor?
E há, claro. No contêiner que serve de escritório, na cantina improvisada...
Mas vocês acham que alguém iria lembrar do banheiro???
E nem adianta passar o dia bebendo pouca água pra evitar a necessidade de retocar a maquiagem da bexiga. Com uma média de 4oC durante o dia, nem cavalo na bunda sua, e a cada vinte minutos a natureza chama.
Meus países baixos estão tão congelados que eu poderia dizer que já conheço os efeitos do botox de retaguarda.

O hotel que nos alocaram é uma página à parte. Aparentemente eles são novos no ramo, e tentam de verdade ajudar. Mas o fato de terem vinte e poucos schub-malucos, uns entrando às sete da manhã, outros saindo às duas da matina, voltando meio-dia, saindo de novo... digamos que não estamos ajudando muito. O fato de que o hotel já tinha alguns quartos reservados de antemão para o fim-de-semana também não ajudou, e nosso apoio logístico acreditou realmente que eles conseguiriam resolver este problema de espaço-tempo.
Assim passamos três dias num troca-troca de quarto absurdo, e os pobres que fazem turno tendo que revezar o uso da cama. Pelo menos me livrei disso, e também de dormir no salão de conferência, onde cinco de nós foram gentilmente acampados.
Para azar de quatro deles, um ronca absurdamente alto.

David, amigo e schub-boy, foi acomodado num quartinho de empregada. Que também foi usado pelos outros cinco do conference camping para tomar banho. Era praticamente um vestiário. Apertadim.
Meu único problema foi o cachorro que ocupava o quarto ao lado. Literalmente. O pobre latia pra qualquer barulho no corredor, e passou uma boa parte da noite ganindo por atenção.
Dia seguinte, nova troca de quartos. Me acomodaram num single-room que tem mais ou menos as dimensões de um quartinho de ferramentas. David conseguiu um quartinho mais digno para ele.
Desci para pedir uma jarra de água. Afinal, é preciso hidratar. O gerente, um sujeito que parece uma versão ainda mais nerd do Bill Gates, se ofereceu pra buscar. Quando me entregava a jarra, gentilmente me avisou que eu também poderia beber água do banheiro, que é potável.
Quase falei pra ele que o cachorro estava acomodado no outro quarto, esse negócio de beber água da privada não é muito a minha.

Saí para almoçar com três outros schub-boys, James e David, grã-bethânicos, e Delphine, francesa. A conversa no almoço girava em torno de bebês e gravidezes, já que um dos operadores, James, vai ser pai em breve. Delphine perguntou se ele sabia qual o sexo do bebê, ao que ele respondeu que não, e que na Escócia é proibido dizer aos pais o sexo da criança que habita a barriga.
Por que disso?, perguntamos a francesa e eu.
''Ah, é que algum tempo atrás um hospital foi processado por conta disso. O médico havia dito o sexo do bebê e os pais prepararam tudo, roupas, quarto, brinquedos... E o médico errou. Ele disse uma coisa e foi JUSTAMENTE O CONTRÁRIO...''
''Interessante. Sempre achei que nessa parada de informar o sexo do bebê, todo o erro seria justamente o contrario... Pelo visto há mais de uma opção aqui''.
Eu mereço...

Jaqueline Costa
É Gente Que Faz – Mal-Feito, mas Faz

segunda-feira, 16 de março de 2009

Turista Profissional

Trabalho é Coisa de Quem não Tem o que Fazer

Com a crise mundial, a queda da bolsa, a agitação do mercado asiático e meus movimentos peristálticos, resolvi tirar férias de novo. E meu chefe aceitou, olha que coisa! Antes que ele desistisse, me bandeei pro Brasil.
Proposta: uma semana de Brasil, uma de Colômbia com minha irmã Paulixta para conhecer Bogotá e a Ilha de San Andres, no mar caribenho, e de volta ao Brasil, para apresentar o carnaval carioca a minha amiga colombiana.

O clima reino juntinhense estava miserável. Dez negativos, nevando loucamente e o vento virado no 600. Isso obviamente afetou consideravelmente o horário de chegada do teco-teco que faz a agradável travessia Aberdeen-Paris, e eu perdi o vôo para o Rio. Aliás, eu e a parte da torcida do Flamengo que estava vindo de Aberdeen, Londres, Dublin e Amsterdã. Ou seja, um monte de brazucas que teriam que inventar o que fazer das dez e meia da manhã até as dez e meia da noite, quando haveria o embarque para o vôo seguinte.
Como Paris não é mais segredo pra mim (escroto mas verdadeiro), nem rolava de sair pela cidade debaixo de neve. Até porque tinha acordado quatro da manhã porque o vôo de Aberdeen era no internacionalmente conhecido Horário de Corno, às seis da matina. Assim, iria tão somente almoçar e arrumar um bom lugar pra ler meu livro. Obviamente, longe do Baby Care Room.
Tranquilamente perguntei à tia que reagendou meu vôo sobre voucher para comer enquanto esperava. Ela gentilmente me estendeu um que dava direito a um sanduíche e uma bebida. Pra passar 12 horas! Mas beleza, tudo que eu queria mesmo era uma cadeira confortável. Assim me encaminhei para o que parecia ser um restaurante razoável para aquela famosa boquinha.
Sentei-me com outros brazucas na mesma incômoda situação que eu – uma carioca que tinha ido a Aberdeen por conta de um curso qualquer de petróleo, um niteroiense que parecia uma mistura de Poeta Gentileza com Bob Marley, e dois irmãos lutadores de Ultimate Fighting.
A conversa era tranquila e dos mais variados assuntos, e eu mais escutava que qualquer coisa, afinal regras de Vale-Tudo não sào minha especialidade, e falar de trabalho à mesa me dá indigestão. Assim minhas contribuições estavam bem parcas até que um dos membros do Clube da Luta resolveu iniciar um momento National Geographic....

Mike Tyson: Um animal que é sinistro é o hipopótamo! ! !
Eu: Bem... é, sim, hipopótamo é... sinistro...
Mike Tyson: Não, ele ataca MESMO!
Eu: É, um hipopótamo nervoso é um perigo...
Mike Tyson: Hipopótamo é sinistro! MATA MAIS QUE ACIDENTE DE AVIÃO!
Eu, imediatamente: Ah, bom.... é que passagem de hipopótamo está muito barata hoje em dia

Não deu, né? Só não me perguntem de que Instituto Gallup esse cara tirou essa estatística!
Como já estou acostumada com esta natureza magnética para situações non-sense que a Deuxa me brindou, achei que tinha perdido o avião só pra poder ouvir essa pérola. Mas o dia ainda não havia acabado.

Devidamente mal-alimentada, procurei um lugar mais tranquilo para relaxar e curtir meu livrinho. Uma tv inacreditavelmente ligada na CNN anunciava uma nova descoberta científica – o crescimento de barba está diretamente ligado a quanto um homem pensa em sexo.
Imediatamente compreendi porque nunca gostei de imberbes.

As 12 horas de De Gaulle caminhavam para o seu final. Ao longo do tempo, vários vôos para regiões nevadas iam sendo cancelados – dado o risco de tentar pousar um boeing numa pista congelada. Mas como ainda não se pratica snowboarding na Rocinha, eu estava tranquila.
Qual não foi minha surpresa quando escuto a voz do aeroporto anunciar que o vôo para o Rio havia sido cancelado!
Problemas na aeronave. Murphy é foda.
E as malas já estavam no bagageiro, a gente não teria como retirar nada de lá. Ou seja, sem uma muda de roupa sequer. Murphy é foda e é um sacana filho-da-puta.
Depois de quase uma hora esperando que o sistema fosse atualizado com um novo vôo para o dia seguinte, troca de passagens, voucher de hotel e de jantar, segui rumo ao meu humilde quartinho. Não sem antes dar uma paradinha na sala de atendimento VIP da Air France e descolar uma providencial necessaire, com uma especialmente bem-vinda camiseta, imediatamente promovida à função de camisolinha.
Já no hotel, tive meu agradável no jantar na lojinha de conveniência, já que o restaurante estava fechado. Comida congelada requentada no microondas, isso porque a França é conhecida pela sua cozinha. Tudo isto cortesia desta fantástica empresa aérea que fez um vôo de 12 horas em 26....

Mas eu estava no Brasil. Isso valia tudo.

Jaqueline Costa
Colômbia à Vista

segunda-feira, 9 de março de 2009

Alpes e Alpinos

Passando Frio em Grande Estilo

Eis que o último fim-de-semana de Janeiro se anunciava e, com ele, a desculpa perfeita para viajar: era aniversário da minha amiga meio-francesa meio-americana, totalmente non-sense e polaca por maioria de votos, Stephie.
Inicialmente pensamos em buscar alguma praia para expor nossas figuras na Medina, mas uma rápida olhada no Weather Channel águou nossos planos: chuva em todas as areias européias. Nossa lógica torta nos levou à decisão de ir então a algum centro de esqui – afinal, se é pra passar frio, que seja estilosamente.
E foi assim que os Alpes Franceses foram agraciados com a presença de uma brazuca perdida, uma americana porraloca e um italiano além de qualquer definição simplista.

A um dia de viajar ela nos envia o destino: Bourg Saint-Maurice. Desconfiei seriamente que o lugar não existisse, já que, até onde sei, Maurício nunca foi santo. Mas como eu sou uma eterna criança, e eles também, fizemos nossas respectivas malas e rumamos para a Terra do Nunca.
Don Peppe havia me dado carta branca para comprar sua passagem, e nós acertaríamos depois as dívidas. No Duty Free do aeroporto de Apértim, os olhos do siciliano rapidamente foram capturados pelas garrafas de whisky em exposição, e ele resolveu comprar um presentinho a mais para Stephie.
Ainda na fila para pagar suas compras, eu perguntei se ele poderia dar uma olhada na minha mala enquanto eu iria ao banheiro. Quando saí do pipi-room vi meu carcamano favorito confortavelmente sentado na cafeteria, e me juntei a ele. Ele então comentou do estranho tratamento que recebeu da moça do caixa no Duty Free, que não só sorriu pra ele (fato inédito com os atendentes aqui), como também desejou a ele boa viagem e bom divertimento. Pepito estava totalmente estupefacto.
Eu imediatamente saquei qual era o caso: “Peppe! Ela pensa que você está pagando tudo pra mim! Caraca, que coisa ridícula! No mínimo ela acha que pode conseguir um fim-de-semana na França também!!!”
Logo depois me lembrei que ele não tinha ainda nem me devolvido o dinheiro da passagem dele...
“Pior! Não só você não me pagou nada, como EU QUE PAGUEI SUA PASSAGEM! Volta lá AGORA e fala que você é meu michê!!!”
Don Peppe achou a história muito divertida. Passou o fim-de-semana se dizendo personal gigolô.

Na chegada ao hotel, nossa primeira missão impossível: embora Stephie houvesse nos dito por email para levar roupa de banho, já que o hotel possuía piscina e jaque-zzi, Don Peppe não levou nem um short sequer, porque em sua mente mafiosa, qualquer resort ligado a atividades desportivas deve também vender roupa de banho – e fomos nós, malas devidamente deixadas no hotel, andar de loja em loja perguntando por sunga. Considerando que TODAS as lojas eram de equipamentos de esqui e snowboarding, vocês podem imaginar o sentimento de estranheza que causamos. Um dos atendentes nos olhou tão desconfiado que quase estendi a mão em sinal de paz e falei: “Leve-me ao seu líder!”
Obviamente, não encontramos nenhuma sunga.

Começamos então a explorar a montanha em que estávamos. “Explorar”, é claro, não pode ser tomado no correto sentido do termo. Na verdade a gente subiu o morro empurrando e enterrando uns aos outros na neve, além da clássica guerra de bolas de neve e um originalíssimo concurso de mergulho.
Há rumores de que a noite foi especialmente fria. Não sabemos. Como um dos presentes que Don Peppe comprou pra Stephie foi uma garrafa de Jack Daniels, nós estávamos devidamente anestesiados e enfrentamos bravamente o inverno francês.

No dia seguinte, como minha insanidade me fazia crer que eu ainda não tinha levado tombos suficientes naquela superfície gelada, convenci a americana a fazer comigo uma aula de snowboarding. O italiano foi nosso cameraman já que, segundo o próprio, ele é fisicamente incapaz de se manter em pé numa prancha.
Devo dizer que me apaixonei pela brincadeira – sobretudo porque todos os meus tombos foram de bunda, ou seja, nenhum problema para meu já sofrido joelhinho. Mas o dia terminava, e nós teríamos que voltar para as respectivas realidades labutantes. Trem de regreso, e meus dois comparsas resolveram me ensinar as artes do poker. Regado a whisky.
Chegar em Aberdeen foi complicaaaaado.

Jaqueline Costa
Jura que vai colocar o diário realmente em dia

Uma Emocionante Saga em Busca da Piada Perfeita

"As Páginas do Díário" surgiram meio por acaso, da união de minha paixão por escrever com a necessidade de responder a meus vários muitos amigos a eterna pergunta que não raro pululava em minha mailbox: "onde é que você tá, mulher?"
Pra não responder um por um, os relatos das viagens foram iniciados, e enviados para uma lista de amigos. Um interessante efeito bola-de-neve começou, com amigos mandando os textos para outros amigos, e a lista foi aumentando. Com tanta gente que nem me conhece querendo ler as besteiras que escrevo, só posso concluir uma coisa: como tem gente boba neste mundo! ! !
Para não correr o risco de perder os textos, resolvi colocar tudo na net, para referências futuras, que não serão aceitas como prova por nenhum juiz.
Claro que isto não significa que vou deixar de mandar as páginas do diário por email para meus diletos, seletos, concretos e infelizes leitores!

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